Mensagem da SPA para o Dia Mundial da Poesia 2025, por Gonçalo M. Tavares

A POESIA NÃO ACALMA OS TERRAMOTOS

As árvores caem e o seu bafo meio moribundo quando chega ao solo emite um som que parece o de socorro.

Os animais guincham com a sua voz particular e analfabeta, mas que sabe coisas que são bem audíveis nesses guinchos que atravessam bosques e montanhas e que quando entram nas cidades imobilizam tráfego e semáforos, os candeeiros apagam-se e fica noite subitamente em todo o lado porque a eletricidade é sensível a uma certa frequência do medo que vem nos guinchos dos animais mais antigos.

Mas, claro, há quem escreva poesia com as costas curvadas sobre o tampo da mesa ou em bicos de pés, como uma bailarina, tentando escrever as palavras mais altas num ponto mais alto, como se a vida fosse simples e métrica e a poesia aparecesse só a partir de certa altitude do humano, que altitude é uma palavra que também deve ser usada para os humanos e não apenas para o avião ou para a montanha, eis uma sugestão direta e modesta.

E sim: o mundo está sonoramente doente e a cegueira é também por vezes uma forma terrível de descansar. As imagens vêm doentes já, à partida, a coxear e com nacos delas mesmas a cair no chão a cada passo. As imagens que recebemos estão mesmo doentíssimas, constipadas, as mais delicadas, umas outras com doenças absolutamente terminais; muitas com doenças contagiosas: vês e ficas parvo, vês e ficas tonto, vês e ficas louco, vês e ficas com cirrose, vês e ficas com sífilis, vês e ficas com gangrena que ofereces no natal como espetáculo à família, mesmo que de modo involuntário.

As imagens são coisas perigosas, são os animais que andam por aí bem mais contemporâneos dos lobos do que se pensa; as imagens caçam humanos com os seus dentes cheinhos de tédio e pressa: tenho tédio e tenho pressa, sai da frente, quero aborrecer outro, quero chocar outro. E o humano vai resistindo como pode, pega num guarda chuva para combater um furacão e por vezes num livro de poesia para pousar sobre a terra que começa a tremer num terramoto de escala aterradora mas o terramoto de escala aterradora não se comove com o livro de poesia ingenuamente colocado sobre o solo, seria bom mas só nos maus filmes: no real abananço da vida normal vai livro, vai mão, vai o teto de século XVI tão lindo, vai a fachada inteira, o prédio rombo rui agora para sempre e, no meio dos destroços, os obcecados os desvairados os distraídos estarão, quem sabe, dias e dias em processo em tentativa de recuperar, no meio dos escombros, um original qualquer de poesia, passando ao lado de mãos que pedem ajuda e de urros humanos que manifestam com essa voz animal que ainda respiram e querem viver. Mas sim, alguns obcecados pela poesia, quem sabe, resgatam dos escombros do século XXI um livrito de versos, sacodem a poeira, tentam perceber se as metáforas estão legíveis e belas e imediatamente inauguram um belíssimo recital de poesia com chá de menta e bolos secos, daqueles de manteiga, meio torcidos, que se esfarelam nos dentes como se fossem eles mesmos, os biscoitos, pedaços de escombros, escombros feitos de manteiga e açúcar, péssimos para a saúde cardíaca e do sangue que está lá por dentro, resguardado.

E é isso: por vezes existe mais produto interno de metáforas na urgência bruta do dia do que em livros encadernadíssimos.

Mastiguemos, então, biscoitos e imagens sentados no sofá sonolento e brindemos ao poente por vir em que resolver urgências se torne belo, ámen.

Gonçalo M. Tavares
21 de Março 2025

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